A concepção mais tradicional aobre saúde e doença é profundamente inadequada para pensar a saúde mental. Se inspirando no filósofo Bento de Espinoza, é mais produtivo pensar saúde e doença como uma função dos tipos de encontros que se constroem: bons encontros e maus encontros, o salubre e o insalubre. Explicando a maneia como Espinoza toma o corpo como modelo para o pensamento, o filósofo Gilles Deleuze afirma:
Quando um corpo ‘encontra’ outro corpo, ou uma idéia outra idéia, acontece que as duas relações às vezes se combinam para formar um todo mais poderoso, e às vezes uma decompõe a outra, destruindo a coesão de suas partes…experimentamos alegria quando um corpo encontra o nosso e entra em composição com ele, e tristeza quando, ao contrário, um corpo ou uma idéia ameaça nossa própria coerência.
Gilles Deleuze, “Espinoza: Filosofia prática”
Os encontros podem ser entendidos, portanto, em termos dos eventos que os sustentam, e dos afetos e relações que todo encontro expressa. Como uma transição vivida na potência de agir do corpo, a saúde é sempre moderada, mantida, ameaçada, ou diminuída nas relações que se estabelecem entre corpos em um espaço ou meio específico. Produzir saúde mental é, nesse sentido, produzir bons encontros em espaços e meios que aumentem a potência (ou seja, que estimulem a liberdade), e não o contrário.
O pensador George Canguilhem tinha uma concepção semelhante de saúde ao contrapor normalidade e normatividade. A “doença” não é uma situação objetivamente analisada pelo médico, mas uma situação de desconforto e deslocamento sentida pelo próprio indivíduo que sofre, que não consegue construir outras regras para viver, pois só vive segundo as regras que a doença permite. Ser “saudável” é ser capaz de produzir novas normas, estender a potência de agir: “O homem normal é o homem normativo, o ser capaz de instituir novas normas, mesmo orgânicas. Uma norma única de vida é sentida privativamente e não positivamente”.
Tomada em sua valência positiva, a saúde pode ser encarada como um aumento na potência de agir conforme o indivíduo se torna mais capaz de afetar (e de ser afetado por) as diferentes entidades que encontra. A doença, por outro lado, efetua uma diminuição específica nessas capacidades, limitando as sensibilidades afetivas dos indivíduos – restringindo sua abertura ao mundo às normas da doença. Recuperar-se do sofrimento psíquico é um acontecimento estendido no tempo, no qual o corpo em recuperação torna-se mais sensível a um cinjunto de afetos e relações produzidos em meios sociais, materiais e afetivos diversos, e não meramente uma diminuição de um sintoma.
Estimularemos a normatividade vital em um ambiente que não estimula a liberdade?