
A fome aflige os Mandan, povo originário norte americano. Os perigos da pradaria desaconselham se afastar de casa. Cada Mandam apanha, em sua tenda, uma mascara encimada pela pele e chifres de Búfalo e se veste – na mão a lança. Da-se início uma dança, lenta e constante. A massa de búfalos, animais viageiros que passam por la, reflui na direção de seus “iguais”. O povo seduz os búfalos, encurta as distancias, facilita a caça. Resolve a crise. Este relato de Elias Canneti(Massa e Poder, 1992 p. 160) introduz o conceito de metamorfose.
A metamorfose é um talento distinto dos seres humanos. Tão natural que nos esquecemos de sua característica específica. Enquanto a imitação é externa cópia de movimentos- como fazem gorilas e papagaios. A metamorfose, por outro lado , tem um caráter interno e complexo (Canneti, 1992).
É em si que o pajé Ianomami sente os espíritos Xapiri , ou o caçador Coissã pressente a presa. O totem animal incorpora, bem como o Búfalo incorpora na dança-longa dos Mandam. Para além da simulação, a metamorfose envolve uma complexa operação espiritual. Nossos Deuses e nossas metáforas são filhos de nossas incorporações.
A metamorfose é a incorporação do outro. É muito natural falar disso, pois todos os dias incorporamos personagens, sentimos empatia, distinguimos performances sociais. Ela surge de nossos movimentos mais profundos e toma forma de acordo com nossa história e personalidade. Eu não represento o búfalo, eu sou o búfalo. Daí é fácil chegar nas antropomorfizações: O totem, O deus de cabeça de chacal, o espírito do tajá. A metamorfose gera então uma Figura: imagem clara e limitada. a)Imitação, b)simulação, c)metamorfose(incorporação) e d)figura eis a hierarquia de Canneti,1992.
Sou afeito a pensar que as incorporações e figuras são claros sinais da complexidade da vida – não abstrações fictícias. Carl Jung em uma série de trabalhos trata em dignificar os aspectos simbólicos da natureza. Em cascata, toda uma tradição psicológica potente, desenvolve estudos sobre os simbolos, arquétipos, imagens e expressão cultural.
Os povos antigos acreditavam que as doenças do corpo e da mente eram entidades espirituais que lhes incorporavam, reconhecido e nomeado por rituais de contra-metamorfose. A revolução hipocrática tirou dos deuses a pecha das doenças e aproximou a medicina da natureza. Trabalhando com sintomas, sinais, categorias diagnósticas. Na idade média a conduta simbólica volta a ganhar palco, o livro Maleus Maleficarum , manual inquisitorial, tentou unir as duas coisas e cada demônio era reconhecido por seus sinais e sintomas.
A psiquiatria e a psicologia gastam um bom tempo em figuras. Figuras que abarquem um conjunto de metamorfoses humanas. Por esse ponto de vista figurativo o DSM(Manual de Doenças Mentais) procede em escrita assim como o Maleus Maleficarum ( Martelo das Bruxas).
O corpo é a origem de todos os símbolos
Como diziam os exorcistas “para controlar o demônio, é preciso saber seu nome”. Re-afirmo a verdade desta frase. As categorizações ou distinções sempre foram parte importante na resolução das doenças do espírito. Mas até este jeito de pensar está ancorado ao pé de outras figurações: à figura do médico hipocrático, à figura da guerra do bom contra o mau…
A mente, como entidade viva, é dinâmica. As figuras, por sua existência histórica, tendem a ser mais fixas. Sábios são as Iyalorixás, Babalawos, mães de santo, pajés que ensinam os limites das figuras que lhes incorpora. As correntes de matriz afro-brasileira carreiam até aqui os conceitos de Ori(cabeça), Emi ( coração e ao mesmo tempo sopro) e esè(pernas), essenciais para a sua teoria de personalidade. O corpo é que permite atualizar as figuras ancestrais.
Portanto, ajudo a levantar a tese, é no corpo que o conhecimento acontece. Sabemos do outro o que sentimos em nós. O aprendizado então é questão de movimento, ação e vivência.
Isso parece ser verdade, Danziger, et al, 2006 estudaram pessoas com Insensibilidade Congênita a Dor ( CIP em ingles), será que estas pessoas entendem com empatia a dor do outro se eles mesmos tem tão pouca experiencia desta no corpo? A resposta é sim, Dazinger encontrou que as pistas emocionais, movimentos dos olhos, boca, contrações ressoavam nas pessoas com CIP e os ajudava a julgar com empatia. Mas quando essas pistas emocionais eram retiradas, estas mesmas pessoas subestimavam a dor do outro.
Nas imagens cerebrais com fMRI ( Ressonância Magnética Funcional), Dazinger et al 2008 em outro estudo percebe uma falta na ativação dos circuitos Occipto-temporais, que se ativam, geralmente, em percepções somatosensoriais (sentir no corpo) e emocionais. Porém as áreas de percepção interior (Insula Anterior e Cortex Cingulado) se ativam normalmente e se relacionam com as sensações orgânicas, mudanças de pressão arterial, frequencia cardíaca etc…
No geral o portador de CIP tem sim empatia fluente ao perceber a dor do outro, mas talvez através de outras pistas corporais: a dor da exclusão social, a dor de perder um ente querido, o nó na garganta, a pressão no peito. A forma como estas experiencias foram incorporadas. Ele percebe o outro em si.
E não é sempre assim? Espinosa em Ética diz que o objeto desta ideia que constitui a mente é sempre o corpo e nada mais(Prop 13 p.2). O pensamento não fantasmeia pelo universo, ele é completamente solidário ao corpo. A mente e o corpo acontecem em simultânea dança no fluxo histórico da natureza. Tal como duas folhas que caem no mesmo fluxo de rio.
Se vamos por ai, concluímos que as figuras: imagens, deuses, demônios, encantos, simpatias; são performances corporais, metamorfoses que fazemos da natureza que nos cerca.
Importante lembrar que o corpo é muito mais do que a redução mecanicista que nos levam crer. Esse desencanto do corpo fixado na figura de um robot mecânico é um erro passado adiante, o corpo é natureza viva e pulsante, tão natural quanto os rios, as chuvas e o cosmos. O corpo é a gravidade que nos sugere existir um “Eu” que não me deixa dissolver no não ser. Este ser que interage ecologicamente influenciando e sendo influenciado pelo fluxo dos ventos, dos rios ou dos búfalos que migram pela terra.
Charles Roosevelt Almeida Vasconcelos
referências:
- Elias Canneti. Massa e Poder. tradução Sérgio Tellaroli. ed: companhia do bolso, 1992.
- Danziger, N., Prkachin, K.M., and Willer, J.C. Is pain the price of empathy? The perception of others’ pain in patients with congenital insensitivity to pain. Brain, 2006 129, 24942507.
- Danziger, N., Faillenot, I., and Peyron, R. Can We Share a PainWe Never Felt? Neural Correlates of Empathy in Patients with Congenital Insensitivity to Pain. Neuron 61, 203–212, January 29, 2009
- Spinoza, B. Ética. Trad: Tomaz Tadeu. Ed: autêntica, 2009